Nutrição e glaucoma: evidência para a prática clínica
Um dos estudos mais robustos nesta área foi conduzido por Kang et al., numa análise prospetiva de 25 anos baseada no Nurses’ Health Study e no Health Professionals Follow-Up Study. A investigação incluiu mais de 100 mil participantes sem diagnóstico inicial de glaucoma, todos com idade superior a 40 anos e seguimento oftalmológico regular.
A ingestão alimentar foi avaliada através de questionários validados, permitindo estimar o consumo cumulativo de nitratos provenientes sobretudo de hortícolas de folha verde, vegetais crucíferos, vegetais de raiz e produtos à base de tomate. Os participantes foram distribuídos por quintis de consumo.
Durante o seguimento foram confirmados 1.483 novos casos de Glaucoma Primário de Ângulo Aberto (GPAA). Os indivíduos no quintil mais elevado de ingestão de nitratos apresentaram redução de 20% a 30% no risco de desenvolver GPAA, bem como redução de 40% a 50% no risco de defeitos paracentrais do campo visual. Particularmente relevante foi a associação entre consumo regular de couves de folha verde e redução até 70% do risco de glaucoma.
Dieta mediterrânica e restrição de sal
Uma revisão recente de Yang et al. consolidou evidência publicada nas últimas duas décadas sobre relações entre dieta e glaucoma. Os autores identificaram benefícios consistentes associados à dieta mediterrânica, caracterizada por elevado consumo de vegetais, fruta, cereais integrais, leguminosas, azeite, frutos secos e peixe, bem como reduzido consumo de alimentos ultraprocessados e açúcares refinados.
Os benefícios parecem decorrer de propriedades anti-inflamatórias, antioxidantes e de suporte à função mitocondrial. Tendo em conta que stress oxidativo, disfunção vascular e alterações mitocondriais estão implicados na degeneração glaucomatosa, este padrão alimentar surge como estratégia plausível de prevenção.
Em contraste, dietas ricas em sal associam-se a pior prognóstico. O excesso de sódio pode aumentar a osmolaridade plasmática e influenciar a ultrafiltração envolvida na produção do humor aquoso, contribuindo potencialmente para aumento da pressão intraocular. Além disso, níveis elevados de sódio relacionam-se com redução da biodisponibilidade de NO, disfunção endotelial e menor perfusão vascular.
Dados populacionais recentes mostram ainda associação entre elevada excreção urinária de sódio e maior risco de glaucoma em indivíduos geneticamente predispostos.
Nutrientes específicos: promessas e cautelas
Entre nutrientes específicos, os ácidos gordos ómega-3 surgem como os mais promissores, devido ao seu efeito anti-inflamatório e potencial benefício na perfusão ocular. Alguns estudos observacionais sugerem associação entre maior ingestão de peixe e menor risco de glaucoma.
Já a suplementação vitamínica permanece controversa. Embora vitaminas A, C, E, D, K e complexo B tenham sido estudadas, a evidência clínica continua limitada e frequentemente baseada em modelos animais.
Por outro lado, ingestões elevadas de minerais como cálcio, selénio, ferro e zinco foram associadas, em alguns estudos, a ligeiro aumento do risco de glaucoma, sugerindo necessidade de prudência na recomendação indiscriminada de suplementos.
Implicações para a prática oftalmológica
Embora a dieta não substitua vigilância clínica nem terapêutica farmacológica ou cirúrgica, os dados disponíveis sugerem que intervenções nutricionais podem integrar uma abordagem preventiva e complementar ao glaucoma.
Na prática, recomendações baseadas na evidência incluem:
- aumento do consumo de vegetais de folha verde ricos em nitratos;
- adesão a padrão alimentar mediterrânico;
- redução da ingestão de sal e alimentos ultraprocessados;
- incentivo ao consumo moderado de peixe e fontes naturais de ómega-3.
A mensagem clínica é clara: pequenas modificações dietéticas podem representar uma intervenção de baixo risco e potencial benefício significativo na prevenção e progressão do GPAA. Num contexto de doença crónica e multifatorial, integrar aconselhamento nutricional na consulta de glaucoma poderá constituir um passo simples, mas clinicamente relevante.
O artigo encontra-se disponível em acesso online na plataforma da revista Glaucoma Today: The Impact of Diet on Glaucoma Risk
2 Outubro 2026
Estudos e Investigação