Endotropia parcialmente acomodativa. Estaremos a ser parcialmente displicentes?
Artigo da autoria de Sandra Guimarães, médica oftalmologista, publicado na revista OftalPro 72.
Vivemos um momento singular na história da medicina. Nunca tivemos acesso a tanta informação científica em tão pouco tempo. Nesse contexto, talvez o verdadeiro desafio seja cada vez mais transformar informação em reflexão. E os bons resultados, agora publicados no American Journal of Ophthalmology, sobre a recuperação de estereopsia em crianças com endotropia parcialmente acomodativa, usando abordagens cirúrgicas mais ousadas e menos conservadoras,1 desafiam a nossa reflexão.
Numa endotropia parcialmente acomodativa, após uma correção ótica adequada, se persistir um desvio residual, a cirurgia é indicada para corrigir a componente não acomodativa. Curiosamente, a literatura concentra-se frequentemente na quantificação dos resultados motores, enquanto a recuperação da função binocular é apresentada apenas como um ganho secundário.
Este estudo1 obriga-nos a refletir sobre uma dimensão muitas vezes secundarizada: a recuperação da função binocular pode ser maior do que pensávamos.
Estudos prévios que avaliaram a estereopsia demonstraram uma recuperação em 18%2, e de estereopsia fina em 35%3 e 24%4, identificando a menor duração do estrabismo como um fator associado a melhores resultados sensoriais2. Este estudo1, menos conservador na abordagem, mostrou resultados sensoriais mais encorajadores: 49% passaram a ter estereopsia, ausente no pré-operatório. Independentemente das diferenças metodológicas entre os trabalhos, estes dados sugerem que a recuperação binocular pode ser mais frequente do que anteriormente se supunha.
A questão que proponho não é técnica. É conceptual. E, talvez por isso, potencialmente desconfortável. Qual é o nível de risco que estamos dispostos a aceitar para tentar evitar uma perda irreversível? Uma última oportunidade para recuperar uma função visual para toda a vida?
Se a perda definitiva do potencial binocular representa um desfecho irreversível, qual é a probabilidade mínima de recuperação que consideramos suficiente para justificar uma intervenção atempada? E, inversamente, qual é a taxa de complicações ou de reintervenções que estamos dispostos a aceitar quando o objetivo é evitar a perda definitiva de uma função binocular?
Bibliografia
- Yehezkeli V, Parunakian E, Meng Q, Demer JL, Suh SY. Surgical outcomes in partially accommodative esotropia using augmented distance-angle averaging with and without hyperopic correction. Am J Ophthalmol. 2026;287:208-213.
- Mohan K, Sharma S. Long-term motor and sensory outcomes after surgery for the nonaccommodative component of partially refractive accommodative esotropia. J AAPOS. 2018;22:356-360.
- Kurup SP, Barto HW, Myung G, Mets MB. Stereoacuity outcomes following surgical correction of the nonaccommodative component in partially accommodative esotropia. J AAPOS. 2018;22:92-96.
- Yagasaki T, Yokoyama Y, Yagasaki A, Hozumi K, Ichikawa S. Factors affecting outcomes of stereoacuity in partially refractive accommodative esotropia with motor success treated by preoperative prism correction and surgery. Clin Ophthalmol. 2024;18:2327-2335. doi:10.2147/OPTH.S470504.
Pode ler o artigo completo na OftalPro 72.
3 Novembro 2026
Opinião