“Mexemos em tecidos 40 vezes mais finos que um cabelo humano”

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O Prémio alcançado em 2019 no Congresso da European VitreoRetinal Society, segue-se ao galardão já conquistado em 2014 para melhor vídeo cirúrgico. O laureado fala-nos da realidade de um hospital universitário, da nova dinâmica na oftalmologia em Portugal e do que se pode fazer para melhorar o atendimento no SNS. Agora que já começou a desenhar as primeiras letras do seu livro, a OftalPro foi ao encontro de Filipe Henriques, o cirurgião que quer revelar os “truques” da sua prática clínica. 

Em 2019 venceu o Prémio para “melhor vídeo de uma cirurgia de retina”. Fale-nos um pouco deste galardão e o que foi feito para poder concorrer ao mesmo?

Sou membro do EVRS, todos os anos participo em palestras com vídeos ou com apresentações orais e já em 2014 foi feito um vídeo cirúrgico. Os prémios são divididos entre melhor vídeo e melhor apresentação oral. Existem oftalmologistas de todo o mundo. O vídeo é mérito não só da cirurgia em si, como também da ponderação da parte estética, da criatividade, da inovação em termos cirúrgicos, naquilo em que a cirurgia contribui para melhorar a prestação dos cuidados e para ajudar outros oftalmologistas.

Em 2014 já consegui um prémio com um vídeo cirúrgico e com esta segunda distinção, em 2019, beneficiei bastante por trabalhar num hospital universitário e com capacidade formativa interna. Temos as nossas ideias, mas depois tem de haver alguém que nos ajude na edição do vídeo. Neste aspeto devo mencionar a Dra. Joana Providência, na altura interna, agora especialista, que me ajudou na edição do vídeo, com a parte mais técnica e eu fiquei com as “ideias” para o vídeo e a cirurgia que foi feita por mim. Há que dar mérito a quem o tem e quando há um prémio significa que trabalhamos em equipa, todo o trabalho deve ser valorizado. Um prémio não é mais uma validação do trabalho que fazemos, é sentirmos que estamos afinal ao nível do que os outros fazem lá fora.

A cirurgia reproduzida no vídeo que esteve em concurso consiste em que técnica especificamente?

É uma técnica que raramente é utilizada, é uma biopsia, é uma cirurgia bonita do ponto de vista técnico, um desafio, não é uma cirurgia de rotina que se faça diariamente e apresentando resultados de um caso que ainda por cima era muito mau. No fundo, tínhamos uma situação em que só há um olho a funcionar e outro olho já se perdeu devido ao problema que o outro (olho) tem, que ninguém sabia o problema, a causa.

Realizamos uma biopsia córneo-retiniana do olho que já estava perdido em termos visuais, para tentar descobrir o que estava a acontecer aos dois olhos, para salvar o olho que ainda tinha viabilidade. A biopsia foi positiva para uma infeção fúngica, uma coisa rara, até parecia um linfoma que afinal não se confirmou.

Foi uma combinação de ter sido utilizada uma técnica rara, do vídeo ter ficado bonito e da situação em que “salvamos” um olho ainda viável. Aliado a isso temos a criatividade do vídeo, algo que nunca tinha visto, que foi fazer uma espécie de história em que havia vários personagens, várias vozes, a do patologista, a do oftalmologista, alguém do laboratório e isso foi algo que tornou o vídeo engraçado.

O prémio alterou algo na sua carreira profissional, no seu dia a dia enquanto oftalmologista?

É difícil quantificar essas coisas, mas obviamente que é sempre bom porque nos dá sempre mais confiança e dá-nos alento para continuarmos a trabalhar. É como se costuma dizer quando alguém recebe um prémio: “nós não trabalhamos para os prémios”. A verdade é essa, ninguém trabalha para os prémios, trabalhamos para tentar salvar “olhos”, mas sabe bem, mais pela validação do que fazemos do que por aquilo que o prémio em si representa. Não há aqui uma relação causa-efeito, de uma consequência prática no dia seguinte. A verdade é que ser um prémio, num congresso internacional, de uma cirurgia delicada como a retina, em que nós mexemos em tecidos 40 vezes mais finos que um cabelo humano, a consequência é mais de autoestima, não é?

As pessoas têm ideia de que a retina é um tecido frágil, toda a gente já ouviu falar em descolamentos da retina, todos sabem que quando a retina descola perdemos visão, penso que sabem que é um tecido delicado. Não sabem é que andamos às vezes a manipular tecidos que a retina tem. Temos tecnologia cada vez mais sofisticada, quer da coloração das membranas, quer na visualização com os microscópios, por isso, temos uma “visão” cada vez mais apurada. Conseguimos assim fazer coisas com maior precisão e eficácia.

Leia a entrevista na íntegra, na OftalPro 53.

10 Junho 2021
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