“A oftalmologia é uma especialidade médico-cirúrgica no sentido mais pleno”

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Entre a exigência da prática clínica, o compromisso com a investigação e a responsabilidade de ensinar, Paulo Freitas da Costa constrói um percurso marcado pela dedicação, mas também pelo desafio constante de conciliar diferentes papéis. Na oftalmologia pediátrica, onde tratar é também saber escutar e tranquilizar, o tempo ganha outro peso — na relação com as famílias, no acompanhamento das crianças e na própria vida de quem cuida. Formado no Hospital de São João, onde ainda exerce, doutorou-se com uma investigação centrada no estrabismo e desenvolve hoje uma prática que atravessa o setor público, o privado e a academia. Nesta entrevista, fala sobre a sua paixão pela oftalmologia, os desafios do estrabismo e a importância de encontrar equilíbrio num caminho profissional que exige muito, mas que também pede humanidade.  

O que o levou a escolher a oftalmologia como especialidade? 

A escolha de uma especialidade médica é, muitas vezes, menos linear do que parece quando a vemos descrita em entrevistas ou em percursos curriculares. É feita numa fase da vida em que ainda conhecemos pouco da realidade concreta das áreas que escolhemos e, por isso, há sempre um grau de incerteza — mesmo que, na altura, não o reconheçamos plenamente. Aquilo que mais me atraiu na oftalmologia foi, desde cedo, a perceção de que se tratava de uma especialidade com um grau de diferenciação muito próprio. É uma área em que, apesar de termos concluído um curso completo de Medicina, sentimos que precisamos de recomeçar quase do zero para verdadeiramente a compreender e dominar.

A especificidade do órgão — na sua anatomia, fisiologia e histologia — e a complexidade das entidades nosológicas que abrange, criam um universo muito próprio na medicina. Esse desafio intelectual e técnico foi, para mim, altamente apelativo. Por outro lado, a oftalmologia oferece algo que considero muito completo do ponto de vista profissional: é uma especialidade médico-cirúrgica no sentido mais pleno. Permite-nos encontrar o nosso espaço individual — seja numa vertente mais cirúrgica, mais clínica ou num equilíbrio entre ambas — mantendo sempre um papel terapêutico relevante. Essa liberdade na construção do próprio percurso também foi determinante. 

Acredito, aliás, que tendemos a gostar daquilo que conseguimos dominar — na medicina como na vida. Provavelmente poderia ter sido feliz noutra especialidade, se me tivesse dedicado a compreendê-la com a mesma profundidade. Ainda assim, sinto-me hoje realizado com o caminho que escolhi.

 Quanto à escolha da oftalmologia pediátrica e do estrabismo, foi um processo mais gradual e, diria, até sensorial. A pediatria, enquanto área médica, sempre me fascinou — a relação com a criança, a necessidade de adaptação constante, a dimensão humana envolvida. Durante o internato, o contacto com as consultas e com a atividade cirúrgica nesta área, no Hospital de São João, foi consolidando essa identificação, de forma quase natural.

Como em quase todos os percursos médicos, as pessoas tiveram um papel absolutamente central. O Dr. Jorge Breda foi e continua a ser uma referência maior para mim — no verdadeiro sentido da palavra “Mestre”: alguém que não só domina o conhecimento, mas que sabe orientar, inspirar e formar. O Dr. Augusto Magalhães mostrou-me como é possível aliar rigor científico e exigência intelectual a uma prática clínica sólida e consistente. E a Dra. Ágata Mota, numa fase mais precoce do meu percurso e como colega mais velha de internato, foi também uma referência importante.

No caso particular do estrabismo, voltou a surgir um elemento que já me tinha atraído na oftalmologia em geral: a perceção de que é uma área difícil, exigente, e que obriga a um domínio técnico e conceptual muito rigoroso para se fazer bem. Essa exigência, longe de afastar, acabou por ser precisamente aquilo que mais me motivou. 

Leia a entrevista completa no mais recente número da OftalPro.

19 Junho 2026
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