Estudo da UMinho alerta para mais miopia nas crianças portuguesas
Um estudo com 347 crianças e adolescentes portugueses concluiu que a miopia está associada sobretudo à idade, ao nível de escolaridade e a características do olho, sendo mais frequente nos alunos mais velhos. A utilização do telemóvel mostrou algumas associações com a miopia durante o período escolar, enquanto as atividades ao ar livre e a miopia dos pais tiveram um impacto menos claro do que o esperado.
As conclusões são apresentadas no artigo científico “Refractive status, visual behaviour, and parental myopia in Portuguese schoolchildren and adolescents”, publicado na revista BMC Pediatrics, por António Queirós, Alice Doellinger e Jéssica Henriques, investigadores do Laboratório de Investigação em Optometria Clínica e Experimental (CEORLab) da Escola de Ciências da Universidade do Minho (ECUM).
O estudo foi desenvolvido no âmbito das teses de mestrado de Alice Doellinger e Jéssica Henriques e envolveu a análise de 347 crianças e adolescentes com idades compreendidas entre os 6 e os 18 anos. Os resultados evidenciam um aumento significativo da prevalência de miopia com a idade. Entre as crianças dos 6 aos 10 anos, apenas 12% apresentavam miopia. Este valor sobe para cerca de 35% nos participantes entre os 11 e os 18 anos.
Destaca-se ainda que, entre os alunos do ensino secundário, a prevalência de miopia ultrapassa os 45%, evidenciando a crescente incidência desta condição visual nas faixas etárias mais avançadas da população jovem.
O estudo identificou também uma associação entre o uso frequente de telemóveis e a presença de miopia, sobretudo durante os períodos letivos (outono, inverno e primavera). As crianças com miopia apresentaram, em média, uma maior utilização destes dispositivos do que as crianças hipermétropes (com dificuldade de visão ao perto). Segundo os investigadores, estes resultados devem ser interpretados com cautela, mas reforçam a preocupação crescente com os hábitos visuais das crianças e adolescentes, num contexto de utilização intensiva de dispositivos digitais. “Os nossos dados confirmam que a miopia é um problema crescente também em Portugal e sublinham a importância de monitorizar os hábitos visuais e promover estratégias preventivas desde cedo”, referem os autores do estudo. Em contraste, o tempo de estudo e as atividades ao ar livre revelaram associações menos consistentes.
A investigação destaca ainda a importância dos fatores hereditários. As crianças com pais míopes apresentaram uma maior frequência de miopia, corroborando a influência da componente genética na saúde visual. Adicionalmente, os participantes míopes apresentavam, em média, um maior comprimento axial do olho, uma característica frequentemente associada à progressão da miopia.
Os autores alertam ainda para o facto de a miopia não se limitar a uma dificuldade de visão ao longe. Quando progride, esta condição pode aumentar o risco de patologias oculares graves na idade adulta, incluindo descolamento da retina, glaucoma e degeneração macular miópica.
O estudo sublinha a necessidade de aprofundar a investigação nesta área em Portugal, nomeadamente através da utilização de metodologias mais avançadas e de estudos longitudinais. Os dados agora publicados correspondem à fase inicial de um projeto que acompanhará os participantes durante três anos, permitindo compreender melhor os fatores de risco associados à miopia e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção mais eficazes.
22 Junho 2026
Estudos e Investigação