Controlo da miopia infantil em 2026: intervenções óticas, farmacológicas e comportamentais
Artigo da autoria de Isa Sobral, assistente hospitalar de Oftalmologia, Oftalmologia Pediátrica e Estrabismo no Serviço de Oftalmologia da ULS Coimbra – Hospital Pediátrico:
A miopia infantil é uma patologia oftalmológica cuja prevalência tem aumentado de forma preocupante a nível global, com implicações médicas, mas também sociais e económicas. Estima-se que esta tendência se mantenha nas próximas gerações, acompanhando alterações nos estilos de vida e nos padrões de desenvolvimento visual das crianças.
A par das causas genéticas indutoras de miopia, os fatores ambientais sofreram mudanças consideráveis nas últimas décadas. Observa-se uma redução do tempo de exposição à luz natural e um aumento das atividades ao perto, nomeadamente com o uso de tablets e telemóveis, o que contribui para o incremento desta patologia. Perante o diagnóstico de miopia infantil, é fundamental atuar no sentido de minimizar a sua progressão, através da implementação de medidas ópticas, comportamentais e/ou farmacológicas.
Neste contexto, a monitorização da miopia infantil exige consultas regulares, com avaliação da refração, medição do comprimento axial e análise da adesão às medidas recomendadas. A periodicidade do seguimento deve ser ajustada ao ritmo de progressão e ao perfil de risco de cada criança, permitindo uma intervenção atempada sempre que necessário. Atualmente, o controlo da miopia infantil baseia-se frequentemente na aplicação combinada de diferentes estratégias, devido ao seu efeito cumulativo e à necessidade de uma abordagem individualizada.
No que respeita às opções óticas, incluem-se lentes com desfocagem periférica (tecnologias DMIS e HAL), lentes de difusão ótica (DOT), lentes de contacto multifocais e ortoqueratologia. Estas abordagens, através da indução de desfocagem retiniana ou alteração do contraste, permitem minimizar a progressão da miopia. Importa referir que não se verifica efeito rebound após a cessação das lentes de desfocagem periférica; contudo, esse efeito pode ocorrer após a suspensão da ortoqueratologia.
Relativamente às medidas comportamentais, recomenda-se: aumento do tempo ao ar livre, com pelo menos duas horas diárias de exposição à luz natural; redução do tempo de exposição a ecrãs e de tarefas prolongadas ao perto; realização de pausas regulares durante a leitura e utilização de dispositivos digitais; e evicção da leitura em ambiente mesópico.
Já a terapêutica farmacológica consiste em atropina colírio. A aprovação da atropina como tratamento para o controlo da miopia ainda não se verifica em muitos países sendo, por vezes, utilizada off-label e com necessidade de manipulação em farmácia para atingir a dosagem pretendida. Esta manipulação em farmácia pode influenciar a eficácia e segurança do fármaco. O efeito da atropina é dose-dependente, com efeitos refrativos e no comprimento axial. Diversos são os estudos relativos à concentração de atropina a utilizar, surgindo frequentemente a dose de 0,05%, como uma opção com melhor equilíbrio entre eficácia e tolerabilidade.
Leia o artigo completo na OftalPro 71.
27 Julho 2026
Opinião