Nova tecnologia na luta contra a miopia infantil
Cerca de 20 oftalmologistas e ortoptistas marcaram presença na Ordem dos Médicos, no Porto, para assistirem à palestra “Como estamos a controlar a progressão da miopia em 2025 – e que lugar tem a RLRL?”. Organizada por José Salgado Borges, diretor da Clinsborges, e Catarina Mateus, professora coordenadora da Escola Superior de Saúde do Politécnico do Porto e investigadora do RISE-Health@TBIO, a apresentação foi conduzida por Carla Lança, investigadora associada da New York University Abu Dhabi. Os três integram um estudo europeu, prospetivo e multicêntrico, que acompanha crianças submetidas à terapia de luz vermelha de baixa intensidade repetida (RLRL), uma via alternativa para corrigir a miopia.
A terapia de luz vermelha de baixa intensidade repetida é uma opção não invasiva para o tratamento da miopia realizada em casa com um dispositivo que emite luz a 650 nm (três minutos, duas vezes por dia, cinco dias por semana). Com mais de 2.000 crianças tratadas em paralelo em todos os estudos, a RLRL superou consistentemente todos os outros tratamentos de controlo da miopia em estudos comparativos, com um efeito ainda mais acentuado na miopia elevada.
Em Portugal, a equipa do estudo multicêntrico é constituída por José Salgado-Borges e Catarina Mateus, em colaboração com os oftalmologistas pediátricos Cláudia Ferreira, Jorge Moreira, José Alberto Lemos, José Coimbra de Matos e Paulo Vale e os ortoptistas Anabela Borges, Inês Pais e Ruben Magalhães, assegurando o recrutamento, o seguimento clínico e a qualidade dos dados, bem como a articulação ética e logística com os serviços de oftalmologia pediátrica. A investigadora Carla Lança integra o consórcio como membro internacional, contribuindo para o desenho metodológico, a harmonização de procedimentos, a formação das equipas e a análise comparativa entre países, reforçando a transferência de boas práticas para o contexto português.
Como estamos a controlar a progressão da miopia em 2025 – e que lugar tem a RLRL?
A Casa do Médico, na Secção Regional do Norte da Ordem dos Médicos, foi o cenário do encontro na noite de 18 de dezembro. Num ambiente que antecipava o espírito de Natal, os convidados foram acolhidos de forma calorosa, com vários petiscos e cocktails de boas-vindas. Após a introdução do evento, protagonizada por José Salgado Borges, Carla Lança descreveu o seu percurso académico e de investigação, desde a formação e estágio em Singapura até ao trabalho atual na New York University nos Emirados Árabes Unidos, sempre em colaboração com centros internacionais. Começou por explicar que a miopia é um problema crescente de saúde pública, com prevalências muito elevadas na Ásia e mais baixas na Europa e em África, e que os fatores genéticos explicam apenas parte do fenómeno, ganhando peso fatores ambientais como maior pressão educativa, trabalho de perto e pouco tempo ao ar livre. A oradora resumiu estudos recentes de prevalência na Europa, realizados em 14 países, que indicam valores globais moderados, mas sublinham a necessidade de dados de melhor qualidade e de incluir países como Portugal.
Em relação ao controlo da miopia, foram apresentadas as principais abordagens atuais: atropina de baixa dose, intervenções óticas (ortoqueratologia, lentes oftálmicas e de contacto específicas), mudanças de estilo de vida e tecnologias emergentes, entre as quais se destaca a terapia de luz vermelha de baixa intensidade (RLRL). Esta nova técnica, aplicada em casa durante três minutos, duas vezes por dia, parece muito eficaz em estudos de curto prazo (2–3 anos), inclusive em alta miopia, mas levanta questões sobre o fenómeno de rebound após a suspensão e sobre a duração ideal do tratamento. Os dados disponíveis apontam para um perfil de segurança globalmente favorável, embora tenham sido descritos casos isolados de alterações estruturais retinianas reversíveis, o que obriga a vigilância com fundoscopia, OCT e atenção a sintomas como pós-imagem prolongada.
Sobre o estudo multicêntrico que decorre atualmente com luz vermelha de baixa intensidade em quatro países europeus, Carla Lança afirma que os resultados preliminares da coorte portuguesa mostram boa adesão, ausência de eventos adversos e tendência para estabilização ou mesmo encurtamento axial em algumas crianças. Defende, no entanto, que a luz vermelha deve ser vista como opção complementar, particularmente em casos de progressão rápida ou resposta insuficiente a outras terapêuticas, e não como substituta das estratégias estabelecidas.
Leia a reportagem completa na OftalPro 70.
26 Março 2026
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