“Este projeto é uma mudança de paradigma completa”
A criação do primeiro Banco de Córneas de Cultura em Portugal permitiu à Unidade Local de Saúde de Santo António (ULSSA) mais do que duplicar o número de transplantes e reduzir drasticamente as listas de espera. Segundo Luís Oliveira, coordenador do programa de transplante de córnea, esta mudança de paradigma encurtou os tempos de espera de anos para poucos meses, melhorou a qualidade dos tecidos disponíveis e abriu caminho à redução da dependência da importação de córneas, com ganhos claros para os doentes.
O Santo António criou o primeiro banco de córneas de cultura do país. Porque foi importante dar este passo e que problema vinha resolver?
Eu trabalho na área dos transplantes de córnea no Hospital de Santo António há cerca de 20 anos. Olhando para trás, ou mesmo recuando às últimas três-quatro décadas, o maior problema do programa de transplante de córnea foi sempre o mesmo: a lista de espera. Sempre tivemos uma lista de espera demasiado longa, com tempos de espera muito acima do clinicamente aceitável, em grande parte porque esta é uma atividade que está obviamente condicionada pela disponibilidade de córneas. Tentamos otimizar todas as fases do processo, nomeadamente a passagem a cirurgia de ambulatório, aumento dos tempos disponíveis, organização das equipas, maximizámos tudo o que pudemos. Faltava-nos melhorar a disponibilidade de córneas. A única forma de o fazer, era haver uma mudança de metodologia, passando para um banco de córneas de cultura, que nos permite ter muitas mais córneas disponíveis para transplante.
Que mudanças concretas já se notam no número de córneas disponíveis e no ritmo dos transplantes?
O Banco foi lançado em outubro de 2023, com a presença do Ministro da Saúde, tendo em junho de 2024 sido transplantas as primeiras córneas de cultura. No entanto, o seu funcionamento pleno deu-se apenas no início de 2025. Em 2024 realizámos 155 transplantes, um número já alto quando comparado com a média anual da última década, que rondou as 135 cirurgias. Em 2025 este número saltou para 307! Mais do dobro da média anual da última década. Mas, mais importante do que o número absoluto, é o impacto que teve na lista de espera. A 1 de janeiro de 2025, tínhamos 322 doentes em lista de espera e fechámos o ano com 137 doentes a aguardar cirurgia. Isto traduziu-se numa redução do tempo de espera, que passou de dois a três anos para cerca de seis meses. O grande impacto passa não só pelo aumento exponencial do número de transplantes, mas especialmente pela redução do tempo de espera.
De que forma esta nova técnica permite alargar o espectro a mais dadores e aumentar a qualidade dos tecidos disponíveis?
Há mais dadores elegíveis para córneas que vão para cultura do que para córneas conservadas a frio. O método implementado no Hospital de Santo António obriga a ter estufas para a conservação das córneas e câmaras de fluxo laminar para a manipulação das mesmas. Além destes recursos materiais, temos de ter biólogos que façam esse processamento. Há muitas córneas que não podem ser colhidas para conservação a frio, mas podem ser colhidas para conservação em cultura. Dadores com idade avançada ou quando a morte foi causada por sépsis (infeções), as córneas não podem ser colhidas para conservação a frio, mas podem ser colhidas para cultura, porque depois a análise microbiológica da córnea vai ser feita no banco de córneas. Isto alarga muito o leque de dadores elegíveis para colheita. Outra questão muito importante é o tempo de conservação. As córneas a frio podem ser transplantadas idealmente até 11 dias, no máximo até 14, mas com perda progressiva de qualidade. As córneas em cultura podem ser transplantadas até 34 dias e sem perda de qualidade, verificando-se até uma certa melhoria na qualidade do tecido no decorrer do processo de conservação em cultura. Isso permite uma muito melhor planificação dos blocos operatórios, visto que se até há bem pouco tempo tínhamos de chamar os doentes de véspera por telefone, porque nunca sabíamos quantas córneas íamos ter, agora podemos ter 20 ou 30 córneas no banco, e como elas duram aproximadamente um mês, podemos planear ao longo das semanas seguintes os transplantes que vamos fazer e agendar os doentes de forma atempada, de forma muito mais racional e mais confortável, quer para os doentes quer para a equipa.
Leia a entrevista completa na OftalPro 70.
19 Março 2026
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