“Uma boa relação não se constrói numa consulta isolada”

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Na oftalmologia pediátrica, onde tratar é também saber escutar e tranquilizar, o tempo ganha outro peso — na relação com as famílias, no acompanhamento das crianças e na própria vida de quem cuida. Paulo Freitas da Costa, oftalmologista pediátrico, fala-nos da singularidade da relação médico-doente. “Uma boa relação não se constrói numa consulta isolada; constrói-se ao longo do seguimento. E isso é particularmente evidente na pediatria, em que acompanhamos o crescimento e a evolução da criança”.

Como define uma boa relação médico-doente em oftalmologia pediátrica?

A relação médico-doente em oftalmologia pediátrica tem uma particularidade importante: raramente é uma relação a dois. É, quase sempre, uma relação a três — médico, criança e família — e cada um destes elementos tem necessidades, expectativas e formas de comunicação diferentes. A criança é o doente, mas muitas vezes não consegue expressar o que sente ou compreender o que está em causa. Os pais, por outro lado, são os que tomam decisões, mas fazem-no num contexto frequentemente carregado de ansiedade, dúvida e, por vezes, culpa. O nosso papel é conseguir navegar nesse equilíbrio.

Para mim, tudo começa pela criança. Antes de qualquer exame ou decisão, é fundamental conquistar a sua confiança. Uma criança que confia em nós facilita tudo o resto — o exame, a interação e, indiretamente, a própria confiança dos pais. Criança confiante, pais confiantes. Essa capacidade de ligação não é totalmente ensinável. Treina-se com a experiência, sem dúvida, mas não existe um manual de instruções. As crianças percebem, de forma muito intuitiva, quando estamos presentes de forma genuína e natural, ou quando apenas estamos a cumprir um papel. E cada médico acaba por desenvolver a sua própria forma de construir essa relação.

Depois, há um elemento que considero central: a adaptação. Não existe uma única forma de comunicar — é preciso ajustar o discurso à idade da criança, ao perfil da família e ao contexto clínico. Há momentos em que é necessário simplificar muito, outros em que é importante entrar em mais detalhes. Saber ler isso faz toda a diferença. A honestidade é outro pilar essencial. Nem sempre temos respostas definitivas ou resultados totalmente previsíveis. Explicar essa incerteza de forma clara, sem alarmismo, mas também sem falsas garantias, é fundamental para construir confiança. Ao longo do tempo, fui percebendo que essa transparência — mesmo quando implica dizer “não sei exatamente como vai evoluir” ou “podemos precisar de mais do que uma intervenção” — acaba por reforçar a relação com as famílias. Permite alinhar expectativas e evita frustrações futuras.

Outro aspeto importante é o tempo. Uma boa relação não se constrói numa consulta isolada; constrói-se ao longo do seguimento. E isso é particularmente evidente na pediatria, em que acompanhamos o crescimento e a evolução da criança. Esse percurso partilhado acaba por ser, muitas vezes, o que solidifica a confiança. Por fim, diria que uma boa relação médico-doente não é apenas uma questão de empatia — é também uma ferramenta clínica. Uma família que compreende o problema, confia no processo e se sente envolvida nas decisões está mais preparada para aderir ao tratamento e lidar com as suas exigências. No fundo, trata-se de encontrar um equilíbrio entre rigor técnico e proximidade humana — e de aceitar que, tal como na prática clínica, também aqui não existe uma fórmula perfeita.

Leia a entrevista completa na OftalPro 71.

4 Setembro 2026
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