“Diagnosticar bem exige tempo, repetição e alguma humildade”
Formado no Hospital de São João, onde ainda exerce, Paulo Freitas da Costa doutorou-se com uma investigação centrada no estrabismo e desenvolve hoje uma prática que atravessa o setor público, o privado e a academia. É esta experiência acumulada que lhe permite olhar para o estrabismo além do senso comum: não como um simples desalinhamento a corrigir, mas como uma condição dinâmica e individual, que exige tempo, humildade e uma comunicação cuidada com os pacientes e as suas famílias.
Quais são hoje os principais desafios no diagnóstico e tratamento do estrabismo?
O estrabismo continua a ser uma área em que a complexidade é frequentemente subestimada. Do ponto de vista diagnóstico, um dos maiores desafios é precisamente a individualidade. Estamos a lidar com um sistema dinâmico, em que o alinhamento ocular pode variar com a idade, o estado de atenção, a fadiga ou até o contexto emocional da criança. Isto torna o diagnóstico menos “fotográfico” e mais dependente de observação longitudinal e de experiência clínica. Na criança, em particular, há ainda o desafio adicional da comunicação. Muitas vezes não temos acesso direto à queixa, dependemos da observação dos pais, da colaboração da criança e da nossa capacidade de interpretar sinais subtis. Diagnosticar bem exige tempo, repetição e alguma humildade para aceitar que nem sempre temos todas as respostas na primeira consulta.
No tratamento, o principal desafio é gerir expectativas — dos pais, mas também as nossas. A ideia de que a cirurgia do estrabismo é uma solução definitiva e previsível ainda está enraizada, mas a realidade é mais complexa. Em muitos casos, estamos a acompanhar um processo ao longo do tempo e não a resolver um problema de forma isolada. A variabilidade biológica volta a desempenhar um papel central aqui. Dois doentes com o “mesmo” diagnóstico podem evoluir de forma completamente diferente. Isso obriga-nos a tomar decisões individualizadas e a aceitar que, mesmo com uma boa técnica cirúrgica, os resultados podem necessitar de ajustes ao longo do percurso — incluindo reintervenções.
Outro desafio importante é integrar o estrabismo numa visão mais abrangente da função visual. Não estamos apenas a alinhar olhos, estamos a tentar preservar ou desenvolver a visão binocular, evitar a ambliopia e, no caso das crianças, acompanhar o desenvolvimento visual num período crítico. Por fim, diria que há também um desafio de comunicação. Explicar esta complexidade de forma clara, honesta e compreensível para as famílias não é simples. Mas é essencial. Uma boa decisão clínica muitas vezes começa com uma boa compreensão do problema por parte de quem está do outro lado.
Leia a entrevista completa na OftalPro 71.
20 Julho 2026
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